Aos 81, Ney Matogrosso põe nesta terça “Bloco na Rua” em Maceió com show no Gustavo Leite; confira entrevista

Agendaa 27 de setembro de 2022

Ney Matogrosso, que faz show em Maceió nesta terça: “Não vivo do passado, nem de nostalgia”.

 

Ney Matogrosso continua a pôr, aos 81 anos, seu “Bloco na Rua”, nome da nova turnê (inspirada na canção de 1972, de Sérgio Sampaio) com apresentação única nesta terça em Maceió, no Teatro Gustavo Leite.

Pouco antes do show, Ney falou a AGENDA A sobre o show, início da carreira, parcerias (inclusive com artistas alagoanos) e sobre como mantém em forma, aos 81, corpo e mente firmes contra o tédio e o conservadorismo.  

AGENDA A: A música “Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua”, de Sérgio Sampaio, se tornou uma espécie de canção-desabafo quando foi lançada em pleno regime militar, em 1972. Por que a escolha quase 50 anos depois?  

 Claro que toda escolha tem um sentido, um momento, mas nem sempre de forma direta ou consciente. Após ter gravado em parceria com outros artistas, queria, com este trabalho, cantar o que gostasse, o que já vem me chamando atenção nos últimos anos, independentemente de quem fosse. Não apenas com o Bloco na Rua, mas também com outras canções, como a Maçã, de Raul Seixas. Já queria gravar há algum tempo, mas ela ganhou há alguns anos outras versões, como da Deborah Blando, e aí preferi esperar o melhor momento. Tenho um caderno em que vou anotando tudo que me atrai, que me chama a atenção, e depois vou esboçando um repertório, uma sequência, que vai passando por várias versões até achar sua forma definitiva, como num roteiro.

Você é considerado há décadas não apenas um dos maiores intérpretes da MPB, como o único grande showman do país, que usou a dança, a pintura facial, a iluminação e os adereços de palco no início dos anos 1970 antes mesmo de ícones do pop-rock internacional como David Bowie. Isso vem de onde, da sua formação teatral?

Sim, vem do teatro. Já atuava e achava que um ator devia também cantar. Só depois, por incentivo de uma amiga, a Luhli (cantora e compositora da dupla Luli e Lucinda, falecida em 2018), que comecei a ganhar mais confiança como cantor. Foi ela que me apresentou aos Secos e Molhados. Foi o teatro que me deu essa visão do todo, do roteiro. E a pintura facial surgiu também de um desejo meu de manter minha privacidade. Estava passeando no bairro da Liberdade, de imigrantes japoneses, em São Paulo, e vi imagens do tradicional teatro Kabuki. E aí me inspirei, claro que em uma versão simplificada. Sobre artistas que me inspiraram, lembro que me marcou quando vi Caetano Veloso se apresentar no palco de rosa choque.

Você usou pintura facial e dançou no palco em suas performances questionando a sexualidade e desafiando o então machismo brasileiro numa era em que o cancelamento não era virtual, mas em praça pública, com riscos físicos concretos. O que mudou do preconceito daquela época para o de hoje?

O preconceito sempre existiu. A diferença é que hoje ele está descaradamente exposto, já que existe uma coisa no Brasil que liberou essa manifestação do preconceito. Mas isso é um ciclo, é passageiro.

Você sempre foi aberto a parcerias com músicos de todas as gerações. De Cazuza, com quem você se relacionou e cujo último show você dirigiu, passando por RPM até Nelson Gonçalves. Fez também parcerias com artistas de Alagoas, como Júnior Almeida e Vitor Pirralho. É uma forma de se manter antenado e não se prender ao que já fez no passado? 

Não me interessa repetir nada. Quando ouço uma nova música ou penso em um novo trabalho, ele precisa primeiro ser atraente e interessante para mim. E talvez, depois, possa ser atraente para os outros. Esse é o caminho. Por isso, me mantenho aberto anotando tudo que me interessa. Sempre foi assim. Seja ouvindo rádio em meio a uma turnê em Imperatriz, no Maranhão, nos anos 80, ou mais recentemente ouvindo Rua de Passagem, do Lenine e Arnaldo Antunes, que depois de ouvir percebi que daria uma ótima abertura do show. Mas não passo o dia ouvindo música metodicamente nessa busca. Sempre recebi muitas gravações de artistas, procuro ouvir dias depois, com mais atenção e, se algo me desperta, termino usando em um novo trabalho (esse foi o caso da música Memória da Flor, de Junior Almeida, que Ney ouviu após uma passagem em Maceió e depois gravou o clipe em parceria com o artista alagoano).

Apesar de saber do seu lugar na história da música brasileira, você não demonstra apego ao passado e já disse que não tem medo da morte, a única coisa inevitável da vida. Aos 81, como você se disciplina para manter o fôlego do corpo e mente?

Quanto ao corpo, me cuido. Não tenho restrições alimentares, como de tudo, mas procuro comer pouco e sempre sair leve da mesa. Desde os 50 anos, comecei a fazer com mais constância, em geral de segunda a quinta, ginástica, musculação e exercícios de alongamento. E procuro manter a mente aberta e desencanada.  Sou aberto a vários temas, nada programado, posso ler de Geologia à História do Brasil. É algo natural, intuitivo, por prazer e curiosidade. Não vivo no passado, de nostalgia. 

Já está pensando em novo projeto após “Bloco na Rua”?

Não, por enquanto, estou apenas focado em desfrutar do prazer dessa turnê. Sempre gostei de viajar pelo Brasil fazendo shows. Naquela época, as turnês eram mais longas, fiz temporadas que duravam meses trabalhando vários dias por semana. Ainda que hoje as temporadas sejam menores, mantenho o prazer de estar no palco.

por Rodrigo Cavalcante

 

SERVIÇO

Ney Matogrosso – Bloco na Rua

Data, hora e local: nesta terça (27), às 21h (casa abre 20h), no Teatro Gustavo Leite – Centro de Convenções

Ingressos – Platéia: R$ 200,00 (meia) e R$ 400 (inteira)/ Mezanino: R$ 125,00 (meia) e R$ 250,00 (inteira)/ Vendas: Petit Paris (Av. Dr. Antônio Gomes de Barros, 215 – Jatiúca)/ Vendas on line: www.ingresssodigital.com