“De Caxias a Coruripe”: CEO de indústria gaúcha de motores elétricos fala da escolha de Coruripe para expansão

Rodrigo 2 de fevereiro de 2023

Carlos Eduardo França, da Mercosul Motores: “Maior diferencial de Alagoas foram as pessoas”

 

Não são apenas os 3.349 Km que separam a cidade de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, de Coruripe, no Litoral Sul de Alagoas.

Além de uma população dez vezes maior da de Coruripe (Caxias tem 523 mil habitantes, Coruripe tem perto de 57 mil), a distância da economia entre as duas cidades é de quase 16 vezes: enquanto o PIB de Coruripe gira em torno de R$ 1,7 bilhão, o de Caxias do Sul superou (em 2019) os R$ 27 bilhões.

Se depender do advogado gaúcho Carlos Eduardo França, CEO da Mercosul Motores Elétricos, com sede em Caxias do Sul, essa distância deve diminuir um pouco nos próximos cinco anos, já que o grupo quer transformar Coruripe em um polo de expansão de montagem, produção, e distribuição (e futuramente, desenvolvimento) de motores em todo Norte-Nordeste.

“Apesar de termos recebido propostas de outras cidades e regiões no Nordeste, a recepção e união de diversos segmentos do setor produtivo de Alagoas fizeram a diferença para a escolha de Coruripe”, diz Carlos Eduardo França, que conversou com AGENDA A sobre os planos do projeto da fábrica em Alagoas e do porquê da escolha de Coruripe.

AGENDA A: Como Alagoas apareceu no radar de investimentos da Mercosul Motores?

Carlos Eduardo França: Sempre quisemos ter uma presença no Nordeste, até por acreditarmos que o Brasil precisa se desenvolver de forma mais equilibrada, com oportunidades em diversas regiões. E isso não é apenas discurso, faz parte verdadeiramente da nossa visão centrada nas pessoas. Somos movidos por esse tipo de desafio e, ao decidirmos montar uma fábrica fora do eixo Sul e Sudeste, tínhamos oportunidades não apenas em Alagoas, mas em outros Estados como o Ceará e a Bahia. E enxergamos que nossa instalação em Coruripe teria um impacto social bem maior.

Para além do impacto social, uma empresa, para sobreviver, precisa levar em conta fatores como qualidade da infraestrutura, mão de obra qualificada e incentivos fiscais. O que mais pesou?

Para ser franco, foram as pessoas de Alagoas. Desde os primeiros contatos, fomos muito bem recebidos, sentimos de todos um desejo muito grande de levar o projeto para o Estado. Não apenas de lideranças políticas, como o secretário Marcius Beltrão (atual secretário de Educação, à época de Desenvolvimento Econômico), o prefeito Marcelo Beltrão, o então governador Renan Filho, como do reitor da Ufal, Josealdo Tonholo, o presidente da Federação das Indústrias, José Carlos Lyra. Enfim, sentimos uma união e uma vontade de que o projeto fosse instalado em Coruripe, até pelo fato da cidade ter vivido a expectativa da instalação de um estaleiro no passado que não virou realidade. Sentimos que em Coruripe faríamos muita diferença e não seríamos apenas mais uma indústria.

Ou seja, a decisão não foi tomada pela infraestrutura, mas pelos benefícios fiscais…

Sobre infraestrutura, poderíamos nos instalar em outros Estados que contam até com mais facilidades de logística, portuária. Quanto aos incentivos fiscais, claro que se trata de um pré-requisito essencial, mas teríamos acesso a incentivos semelhantes em outros Estados. Como disse, foram as pessoas, a integração de vários atores, do governador ao reitor, do prefeito de Coruripe ao comando da Federação das Indústrias, que fizeram a diferença.

Quanto será investido no Estado e quando as obras iniciam?

O projeto prevê na primeira etapa uma linha de montagem de motores (elétricos industriais de pequeno porte), seguida da instalação da fábrica. Enfim, são várias fases de um projeto que inclui 8 pavilhões de 10 mil metros quadrados e investimento estimado de cerca de R$ 170 milhões. Queremos iniciar as obras do primeiro pavilhão já no início do próximo ano. E, a médio prazo, temos planos de expandir a produção e fazer parcerias com a Ufal, por exemplo, para desenvolvimento de novas tecnologias em conjunto com engenheiros da universidade.

Muitos moradores de Coruripe se frustraram com o anúncio de um estaleiro que terminou não se instalando. Como será o aproveitamento da mão de obra local, já que muitos até fizeram cursos técnicos para o estaleiro e sonham agora em trabalhar na fábrica?

Nosso foco, claro, é trabalharmos com a mão de obra local, incluindo muitos que fizeram cursos para trabalhar no estaleiro. Mas, até mesmo em função do que ocorreu com o anúncio de investimentos no passado que não foram concretizados, preferimos ser cautelosos para não gerar expectativas irrealistas.

Até mesmo por que, a previsão de empregos nessa primeira fase de linha de montagem é de apenas 30 vagas, isso?

Sim, de 30 a 40 vagas nessa fase inicial, sem contar os empregados na construção dos pavilhões. Mas esse número vai se expandir, claro, nas outras fases do projeto, além dos empregos que devem surgir também com desembarque de empresas de fornecedores e outras empresas de metal mecânica, usinagem, enfim, toda uma cadeia que gira em torno da produção. Nosso projeto é dividido em fases, mas nossa meta final é ousada. Queremos, sim, transformar Coruripe em um centro de produção de motores elétricos e, futuramente, novos produtos com tecnologia de ponta para atender a crescente indústria de veículos elétricos, por exemplo. E queremos fazer isso seguindo os melhores modelos internacionais em que a indústria, as universidades locais e outras instituições trabalham em parceria para o desenvolvimento local.