Em Alagoas, presidente nacional do Sebrae explica por que considera atuação da entidade no Estado referência no Brasil

Rodrigo 7 de fevereiro de 2024

Décio Lima, à frente do Sebrae nacional: elogio à atuação da entidade em Alagoas e anuncio de crédito bilionário para micro e pequenas empresas

 

Desde que assumiu, em abril do ano passado,  a presidência nacional do Sebrae, o ex-deputado Federal por Santa Catarina e ex-prefeito de Blumenau pelo PT, Décio Lima, tem usado sua conexão direta com o presidente Lula para conseguir não apenas alavancar os programas da entidade, como também para influenciar as políticas econômicas do governo voltadas para micro e pequena empresa.

“Em parceria com Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica, bancos de fomento, cooperativas de crédito e outras instituições, estamos criando um fundo garantidor para conceder R$ 30 bilhões de crédito para micro e pequenas empresas”, anunciou o presidente do Sebrae a AGENDA A, durante sua visita ao Estado sexta passada.

 Durante a entrevista no Centro de Inovação do Jaraguá, o presidente da entidade falou também sobre sua visão do Sebrae Alagoas que, segundo ele, se tornou uma referência entre as entidades estaduais no Brasil. “Não estou falando isso de forma retórica. O fato é que o Sebrae Alagoas tem conseguido superar todas as metas que traçamos em nosso planejamento nacional”, disse Décio Lima.

 

Você assumiu a presidência do Sebrae em um momento de mudanças tecnológicas em que o acesso das micro e pequenas empresas à informação e capacitação por outros meios é cada vez maior. Qual deve ser o papel do Sebrae nesse novo cenário? 

Desde a fundação, o Sebrae não nasceu para buscar soluções sozinho ou para concorrer com outras iniciativas. Somos uma entidade com espírito de parceria e com uma institucionalidade sem igual que nos permite aglutinar um extraordinário celeiro de sabedorias acumulado em todo país para ser usado com a maior eficiência nesse momento de retomada de desenvolvimento. A razão da minha agenda aqui em Alagoas segue exatamente esse espírito de sinergia. Como disse recentemente o próprio presidente Lula, estamos naquele momento de aglutinação em que, quanto mais abelha, mais mel. Por isso mesmo, temos realizado nesse período um trabalho para tirar o Sebrae do isolamento, de um olhar apenas para dentro, para interagir com as instituições, inclusive as que representam os grandes da indústria, do agronegócio e do comércio. Precisamos disseminar com clareza a narrativa de que o desenvolvimento de todos passa pelo fortalecimento dos pequenos, e é nessa direção que retomamos programas e cooperações com outras instituições para a inserção das micro e pequenas empresas no mercado internacional. Num momento em que o Brasil volta a ter um papel de liderança no Mercosul, preside temporariamente o G20 e retoma com mais força uma agenda comercial com os países da África, da Europa e da Ásia, sem esquecer de um projeto de ainda maior integração com a América Latina, o Sebrae tem um papel importante em fazer com que os as micro e pequenas empresas possam se inserir nesses mercados.

 

Você foi prefeito de Blumenau, cidade polo de indústrias, esteve à frente do Porto de Itajaí e tem acompanhado de perto o processo de desindustrialização do país. Em Alagoas, a situação ainda é pior, já que o Estado é o único do Nordeste onde a indústria tem uma participação no PIB proporcionalmente menor à da agropecuária. Como sair desse apagão de política industrial?  

Esse é, sem dúvidas, o grande desafio do Brasil. Somos um país rico, com presença nos grandes conselhos internacionais, um país sustentável, que tem 87% de sua base energética em fontes limpas, temos a Amazônia e, o mais importante, temos um povo criativo com uma capacidade de inovação sem igual. Compare, por exemplo, a capacidade criativa do nosso povo com a da Europa. Mas temos que entender que, para a retomada da industrialização, o país precisa romper com visões institucionais atrasadas que ainda resistem em parte de uma elite que não consegue enxergar a grandeza desse grande abelheiro que somos. Temos um grave problema da hegemonia do sistema financeiro, com organizações bancárias entre as que mais lucram no mundo e que tomaram conta da política de juros do Banco Central, fazendo com que o país tenha as maiores taxas de juros no mundo. Além disso, entramos numa nova etapa, que o vice-presidente Geraldo Alckmin tem acertadamente chamado de neoindustrialização. Até porque a indústria, você há de convir, passa por uma revolução. Saímos do modelo fordiano, com ênfase nos trabalhadores da fábrica, para a robotização e hoje para a inteligência artificial. Quando fui prefeito de Blumenau, a companhia Hering devia ter mais de dez mil funcionários, enquanto hoje deve ter 500. E nós precisamos atrair investimentos externos para acelerar o processo de inserção do país, inclusive das micro e pequenas empresas, nessa nova etapa do capitalismo, o que exige a retomada da credibilidade da imagem do país no mundo, Felizmente, os resultados alcançados na economia têm surpreendido. Ninguém imaginava, nem o FMI, que iríamos ter um crescimento do PIB três vezes maior do que o previsto, o maior superávit da balança comercial brasileira da história e reduzir o desemprego. Até o Banco Central iniciou sua redução da taxa de juros, ainda que lenta, porque não tem mais narrativa para justificar a Selic. Só ano passado foram mais de dois milhões de empregos criados. E de cada dez empregos criados, oito têm origem na micro e pequena empresa.

 

Daí sua defesa para evitar tentativas de alterar programas como o regime de tributação do Simples, que são apontados por alguns economistas como distorções…

A criação do Simples e do MEI (Microempreendedor Individual) é uma conquista. Claro que é possível melhorar esses programas, mas a economia brasileira seria muito pior eles. Até porque nosso modelo de mercado não foi feito para os pequenos, foi feito para os grandes. E se você pegar o retrato da economia brasileira, vai ver que 95% dos CNPJs são de MEI ou pequenas que estão no Simples. Como não dá para tratar o pequeno como se ele tivesse o poder dos grandes, não vejo outra saída a não ser políticas de Estado que efetivamente protejam esse segmento. Veja a questão do crédito, por exemplo. Quantos proprietários de micro e pequenas empresas conseguem ter avalistas ou garantias para ter acesso a crédito, mesmo com juros altos que nós tempos. Aproveito para anunciar aqui em primeira mão que vamos lançar a maior carteira de crédito da história com um fundo garantido de R$ 30 bilhões. Estamos montando uma carteira única com fundo garantidor em sinergia com Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica, bancos de desenvolvimento regionais como o Banco do Nordeste, todas as entidades de cooperativas de crédito. Com esse fundo garantidor, o crédito poderá ser acessado ao micro e pequeno sem avais que muitas vezes essas empresas não têm como conseguir. Estamos discutindo com as instituições como serão os juros, mas posso adiantar que esse montante representa um valor equivalente a tudo que foi concedido nos últimos 30 anos.

 

E aqui em Alagoas, como você avalia a atuação do Sebrae? 

Com todas as dificuldades históricas e sociais do processo histórico do Estado de Alagoas, o Sebrae aqui me surpreendeu extraordinariamente por uma gestão que é um paradigma para outros em todo o país. E não estou falando de forma retórica pela presença do Vinícius (Lages, diretor superintendente do Sebrae) que lidera essa gestão. Estou falando de números e superação de metas traçadas em nosso planejamento estratégico que fazem do Sebrae Alagoas um caso de sucesso no Brasil. Todas as metas aqui foram atingidas para além daquilo que foi produzido em outros Estados. Enquanto nós somos a sexta marca do Brasil, o Sebrae é a terceira marca de maior empatia no mercado de Alagoas. E confesso que não esperava ver aqui esse resultado fantástico que foi construído não apenas Vinícius, como pela Juliana (Almeida, diretora administrativa e financeira) e por meu primo (risos) que também tem sobrenome Lima (Keylle Lima, diretor técnico). Tive também o prazer de conhecer a cidade de Pilar, premiada por nós como uma cidade empreendedora, e saio daqui com a responsabilidade de ampliar ainda mais a musculatura financeira do Sebrae para garantir a expansão dessas ações.