“Alagoas poderá duplicar produção de cana sem precisar expandir área”, diz CEO de centro de referência em biotecnologia

Rodrigo 28 de maio de 2024

César Barros, CEO do Centro de Tecnologia Canavieira, de Piracicaba: melhoramentos genéticos permitirão dobrar produtividade da cana nos próximos anos

Enquanto a produção de grãos atinge recordes de produtividade a cada ano, impulsionada por investimentos em biotecnologia e novas variedades genéticas, a cana-de-açúcar tem enfrentado desafios. Comparada a culturas como a soja e o milho, que apresentam aumentos constantes de produtividade, a cana perdeu espaço, levando Alagoas a perder posições na área em meio a crises que, nos últimos anos, levaram à falência (ou à recuperação judicial) diversos grupos sucroalcooleiros no Estado.

Ainda que a cana não volte a ter a mesma força do passado (para o bem e para o mal), o que Alagoas deveria fazer para não desperdiçar sua expertise e conhecimento acumulado por décadas? E como a biotecnologia pode ajudar a transformar o cenário da produção no Estado nos próximos anos?

“Se Alagoas aliar suas vantagens climáticas e de mão de obra qualificada no setor com  variedades mais resistentes desenvolvidas geneticamente, o Estado poderá dobrar sua produtividade nos próximos anos dentro da mesma área plantada hoje”, diz o agrônomo César Barros, CEO do Centro de Tecnologia Canavieira, com sede em Piracicaba, referência mundial em biotecnologia de cana que conversou sexta passada com AGENDA A sobre o futuro da cana no Nordeste e em Alagoas durante uma visita a clientes do CTC em Alagoas

Confira abaixo:

A história de Alagoas se confunde com a história da cana-de-açúcar, mas o Estado perdeu competitividade no setor e os poucos grupos sobreviventes foram aqueles que expandiram a produção para outras regiões. Como o Estado, que tem bem menos áreas do que Estados do Sudeste e do próprio Nordeste, pode manter-se competitivo no setor?

Alagoas tem vantagens comparativas que incluem clima favorável, com alto índice de radiação solar sobre a planta e uma mão-de-obra altamente qualificada, com técnicos profundamente conhecedores da cultura da cana que estão atuando hoje em todo o país, inclusive no CTC. O Estado tem também diferenciais logísticos pela proximidade do porto de exportação e rotas mais próximas dos mercados da Europa e da América do Norte. Como você citou, claro que Alagoas tem menos terras para expansão quando comparado com Estados como Maranhão, por exemplo. Mas esse é um problema que pode ser resolvido com aumento de produtividade nas áreas existentes.

Alagoas poderá, então, expandir sua produção sem necessidade de mais terras?

Não tenho dúvidas. Nosso compromisso no CTC é fazer com que as novas variedades decorrentes de pesquisas permitam dobrar a produtividade de cana-de-açúcar no Brasil nas próximas décadas. E isso pode ocorrer em Alagoas ainda em um tempo menor por toda a expertise que o Estado já tem no setor. Alagoas foi pioneira em levar a cana-de-açúcar para a região dos tabuleiros, tem longa experiência no manejo agrícola, conhecimento dos  sistemas de irrigação e de mecanização que, somados a um bom plantel de novas variedades de cana, pode dobrar a produção no Estado sem necessariamente precisar expandir sua área.

A recente valorização do preço do açúcar e a incerteza em torno das políticas governamentais no incentivo do álcool desestimularam o boom da cana para a produção de biocombustíveis nos últimos anos. Esse cenário vai mudar?

As usinas brasileiras aprenderam nos últimos anos a atender às oscilações das demandas do mercado de forma flexível e sustentável. E cada grupo empresarial tem tomado suas decisões frente ao que considera o melhor retorno do investimento para cada um. Mas estamos acompanhando com otimismo o surgimento de novas demandas por biocombustível, não apenas no já consolidado setor de veículos leves, mas agora também pelo interesse despertado para o uso na aviação e, também, como matéria-prima para o combustível marítimo. Todas essas tendências indicam que o biocombustível à base de cana está sendo encarado como essencial para a transição energética. Além disso, os investimentos das usinas na transformação de resíduos em biogás, em seguida, em biometano, tem mostrado como esse caminho é cada vez mais importante para a produção de energia. O fato é que a cana continuará sendo protagonista nesse momento de transição.

Por que, ainda assim, os avanços genéticos para aumentar a produtividade da cana nos últimos anos não ocorreram no mesmo ritmo de expansão da produtividade de culturas como o milho e a soja? 

Essa é uma boa pergunta que pode ser respondida, em primeiro lugar, pelos altos investimentos dos grandes grupos multinacionais em variedades geneticamente modificadas direcionadas para essas culturas. Não é à toa que, nos últimos 20 anos, a produtividade do milho dobrou e a da soja cresceu entre 30% e 40%. Além disso, a variabilidade genética e a complexidade da cana de açúcar são bem maiores do que, por exemplo, o do milho. Para se ter uma ideia, levava-se em média 15 anos para desenvolver uma variedade genética da cana-de-açúcar, mas já conseguimos reduzir essa média para oito anos com o uso de ferramentas mais modernas. Somente na safra passada, nós, no Centro de Tecnologia Canavieira, investimos R$200 milhões em pesquisa e, nos últimos 10 anos, algo em torno de R$2 bilhões investidos em pesquisa e desenvolvimento. Esse investimento tem acelerado a produtividade das novas variedades que, a cada ano, resultam num crescimento em torno de 3,5% a 4% em comparação com uma variedade anterior, o que deve, no agregado, dobrar a produtividade mais à frente.

Diferentemente de outros centros de desenvolvimento de variedades de cana, incluindo o programa de melhoramento genético da cana-de-açúcar do Centro de Ciências Agrárias da Ufal, vocês decidiram transformar o CTC numa empresa S.A. independente da cooperativa da qual faziam parte em São Paulo, a Copersul. Como se dá, na prática, a cobrança do cliente que quer usar essas variedades?

O Brasil foi pioneiro em normas regulatórias como a da lei de proteção de cultivares (lei de 1997 que introduziu a proteção da propriedade intelectual no campo do melhoramento vegetal). Ao lado da lei de patentes, ela garante que o investimento em pesquisa e inovação na área tenha a proteção da variedade que é lançada ao mercado. E isso é essencial para que nós, do CTC, possamos ampliar nossos investimentos. No caso da cana de açúcar, que tem uma característica diferente de outras culturas por se multiplicar por propagação e não pelas sementes, nosso modelo é via cobrança de royalties dos clientes pelas áreas plantadas com as variedades desenvolvidas no CTC. É isso que permitiu, no último ciclo, que investíssemos mais da metade da nossa receita em pesquisa e desenvolvimento. Acho que são pouquíssimas empresas que fazem isso.