Atriz que iniciou carreira em AL (e atuou em filme brasileiro no Oscar) fala de nova estreia em Maceió
Agendaa 20 de julho de 2017
por Rodrigo Cavalcante
Ela nasceu em Petrópolis (RJ), mas iniciou a carreira de atriz em Maceió, para onde veio com a família aos 14 anos, fez o curso de formação de atores da Ufal e estreou com a peça O Despertar da Primavera, em versão dirigida por Glauber Teixeira (ator e diretor de Alagoas que morreu ano passado afogado no Rio São Francisco).
Aos 38 e morando no Rio, onde se formou e seguiu carreira na área, Karine Teles é hoje uma das atrizes mais respeitadas do cinema brasileiro após conquistar projeção nacional e até internacional graças a personagens como Bárbara, a patroa de Val (Regina Casé) no filme Que Horas Ela Volta?, que representou Brasil no Oscar em 2015.
Nesta quinta, a atriz está de volta às telas de Maceió com o longa Fala Comigo, filme dirigido por Felipe Sholl elogiado pela crítica pela forma como aborda temas como o afeto e sexualidade entre um jovem de 17 anos (Diogo, interpretado por Tom Karabachian, filho do cantor e compositor Paulinho Moska e Ângela interpretada por Karine), uma mulher de 40 anos recém divorciada que se apaixona pelo jovem que é filho da psicanalista dela (Denise Fraga).
“Quem mais se sobressai (no filme), no entanto, é Karine Teles como a namorada de Diogo”, escreveu semana passada na Folha de São Paulo o jornalista Naief Haddad, após elogiar o longa como “um drama brasileiro com a coragem de cutucar tabus”.
Antes da estreia do longa em Maceió (veja horários e trailer abaixo), Karine falou com AGENDA A sobre o início da carreira em Maceió, suas experiências na TV (incluindo a participação na novela A Regra do Jogo) e sua paixão pelo cinema.
AGENDA A: Como foi o início de sua carreira de Teatro em Maceió?
Karine Teles: Nasci em Petrópolis e vim com 14 anos para Alagoas após meu pai receber uma proposta de trabalho em Maceió, onde parte da família vive até hoje (Karine é filha do psicoterapeuta Laerte Leite e sua mãe Neli e a irmã Juliana Teles também atuam). Apesar de já ter despertado para o Teatro em Petrópolis, foi em Maceió que estreei pra valer ao ingressar no curso de atores da Ufal e na montagem O Despertar da Primavera, dirigido pelo Glauber (Teixeira), uma pessoa generosíssima. Após passar em um teste na época com o Eron (o ator alagoano Eron Cordeiro), entrei na peça que foi minha primeira experiência em um espetáculo. O galpão onde encenamos no Jaraguá lotou durante três meses de montagem e acho que aquela foi uma experiência definitiva.
Apesar de ter seguido carreira no Rio e estreado na TV desde o fim dos anos 1990, em Malhação, e mais recentemente na novela “Regra do Jogo”, você tem uma carreira mais focada no teatro e no cinema, onde ganhou projeção. Isso é intencional?
Sim, minha primeira participação na TV, em Malhação, foi um tanto atropelada e até assustadora. Acho que não tinha experiência para lidar com o nível de exposição da indústria. Ao rever depois o trabalho, sei que não fiz direito. A atuação foi exagerada, enfim, não gostei. E, desde cedo, tinha o sonho de fazer cinema, sim, o que durante muito tempo no Brasil era realmente apenas um sonho. Ainda lembro, por exemplo, da felicidade ao assistir em Maceió, no Arte Pajuçara, o filme Carlota Joaquina, de Carla Camuratti, que foi um marco do renascimento do cinema no país. Enfim, sempre me realizei no Teatro e quando tive a oportunidade de fazer cinema, mergulhei de cabeça.
Como foi o convite para protagonizar Bárbara no filme Que Horas Ela Volta?, a patroa do personagem Val, interpretada por Regina Casé, escolhido para representar o Brasil no Oscar?
Foi outra sorte que tive. Tinha acabado de fazer um trabalho com a Anna Muylaert (diretora) e ela em seguida me chamou para fazer um teste, uma espécie de versão demo do filme rodado durante dois dias seguidos. A Anna, que é muito sagaz, estava em busca de um rosto para a personagem que não fosse muito conhecido na TV, para que a Bárbara não fosse rotulada como vilã e mantivesse a ambiguidade da personagem. Desde o início saquei a importância do filme, que tratava de temas tabu de nossa hipocrisia social, que hoje ainda está mais aflorada. Enfim, me preparei e terminei passando no teste, apesar de ser uma atriz mais nova do que a produção esperava para o personagem.
Pelo que aconteceu no país desde o lançamento do filme, você acredita que o personagem da Bárbara venceu?
Não, acho que Bárbara e todos perderam. Estou muito apavorada com tudo o que está acontecendo, quem venceu foi a ganância e a corrupção.
Mas a Bárbara simbolizava exatamente esse desconforto da classe média alta brasileira…
Sim, mas ela também sofre, ainda que sem ter exata noção, no papel da patroa que se sente pressionada e invadida pela ascensão da filha da Val. Enfim, acho que a Bárbara não venceu. Assim como boa parte da classe dominante brasileira, ela está descontrolada, como na cena em que dá um piti ao ver a filha da Val na piscina.
No filme que estreia nesta quinta em Maceió, Fala Comigo, você faz o papel de uma quarentona que decide viver um caso de amor com o filho da própria psicanalista, um jovem de 17 anos. Enfim, o filme toca em mais um tabu. Como foi fazer o personagem?
Apesar de o filme ser o primeiro longa do Felipe (Sholl), ele já era um roteirista com muita experiência e acho que o que me marcou mais no personagem é a coragem que ela tem de ser feliz e de mergulhar em uma relação, por mais difícil e inusitada que seja. Ela vai com tudo, no bom sentido de amar sem vergonha, mesmo, apesar de todas as barreiras e constrangimentos. E acho que o filme trata desse amor com muita consistência e delicadeza.
Em meio aos projetos no cinema, sobra espaço para o Teatro?
Claro, na verdade já estou em meio aos ensaios da nova parceria com a Bia Lessa, na montagem de Grande Sertão Veredas. Trabalho com a Bia desde o final dos anos 1990, onde tive a oportunidade de atuar e aprender com atrizes como a Renata Sorrah, a Deborah Evelyn, a Betty Gofman, enfim, um período marcante ao lado de pessoas que veem o teatro com muita disciplina e consistência e que foram essenciais na minha formação para que eu encarasse mais esse desafio.
Na montagem, você fará o papel de…
Diadorim.
Simplesmente, o personagem central da obra ao lado do Riobaldo.
Entende agora minha ansiedade com o tamanho do desafio? (risos).
Serviço
Fala Comigo
Centro Cultural Arte Pajuçara – 18h45 (exceto segunda)
classificação: 14 anos
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